sábado, 14 de novembro de 2009

Entrevista a Franck Lopez de “O Quam Tristis…” e Opera Multi Steel

O Quam Tristis…”, Opera Multi Steel e muito mais…entrevista a Frank Lopes por Luiz Soncini.

Franck Lopez (em Opera Multi Steel e The 3 Cold Men) ou Hugues Dammarie (em “O Quam Tristis...” e Thy Violent Vanities) ou ainda Franz Torres-Quevedo (quando em Collection D’Arnell~Andrea) é indubitavelmente uma pessoa única e especial (como aliás todos os seus companheiros dos projectos musicais), apesar da multiplicidade de personagens que brilhantemente representa nos seus vários e ecléticos projectos. Tive mais uma vez o prazer em entrevistá-lo e descobrir as óptimas novidades dos múltiplos trabalhos.

Qual é a relação entre Opera Multi Steel e “O Quam Tristis…”?
Na verdade, as origens de “O Quam Tristis…” enraizaram-se bem no início do século XXI quando decidimos terminar o Opera Multi Steel após o lançamento do álbum “Une Idylle en Péril”. Naquele período, fomos convidados a integrar uma compilação italiana; então enviamos o tema “Laudamus te” de OMS cantado em latim. O proprietário da editora interessou-se em produzir um novo álbum, porém considerava complicado promover uma banda de língua francesa. Como somos amantes do Latim e costumávamos usá-lo em alguns temas em OMS, consideramos este novo desafio e compomos dúzias de canções baseadas em poemas escritos somente naquele idioma. Quando a Palace of Worms recebeu o novo material, obtivemos um sim para a edição do primeiro álbum como “O Quam Tristis…”.
“O Quam Tristis…” band

Esta transição foi uma “evolução” ou simplesmente devemos colocar os projectos em potes diferentes?
Decidimos encontrar um novo nome para se distanciar um pouco de Opera Multi Steel. Naturalmente aquele primeiro álbum, “Funérailles des Petits Enfants”, estava repleto de sonoridades de OMS e pode sim ser considerado uma espécie de evolução da banda anterior. Porém os dois álbuns seguintes (“Le Rituel Sacré” e “Meditations Ultimes”) possuem uma identidade própria e apresentam-se como muito mais homogéneos quando comparados aos trabalhos antigos. Opera Multi Steel. tinha um estilo particular, ou melhor não tinha um estilo pré-definido e usávamos quase tudo que gostávamos, muitas vezes, dentro do mesmo tema. Com “O Quam Tristis…” tivemos a oportunidade de aprofundar algo que só explorávamos de quando em vez em OMS; o nosso amor pela linguagem antiga e pela música clássica e medieval.
Opera Multi Steel Band
Qual a razão para a alteração dos vossos nomes em “O Quam Tristis…”?
A decisão de se alterar os nomes teve o intuito de promover uma nova identidade e um tipo de anonimato provisório. Mesmo que os fãs de OMS não permanecessem por muito tempo sem descobrir que éramos as mesmas pessoas, nós tivemos um reconhecimento maior pelos críticos e Imprensa especializada em França através do primeiro álbum do que em todos os anteriores com OMS. Se tivessem feito esta relação desde o princípio, certamente não teríamos conseguido uma repercussão tão boa.

Como surgiu a ideia de basear as músicas em poetas seculares e litúrgicos?
Nos dois primeiros álbuns usamos principalmente lírica litúrgica pois eram as mais numerosas e fáceis de conseguir e mantivemos o Latim para preservar uma certa atmosfera religiosa… Posteriormente começamos a buscar poemas dos esquecidos autores medievais que versavam sobre amor, morte e preocupações daquele período. O sustento do Latim deve-se a diversas razões, mas podemos dizer que a principal é a facilidade em ser cantado, tal como a Italiano de certa forma… É misterioso, visto que muitas pessoas o entendem, apesar de muito pouco se falar actualmente. Além disso alguns dos integrantes de OQT, quando estudantes, cantavam clássicos temas como “Glória” de Vivaldi e “Requiem” de Mozart nos corais; assim foi uma boa maneira de harmonizar o passado e o presente.

Após este 4º álbum, podemos dizer que o uso do Latim é uma marca registrada deste projecto?
Penso que nunca alteraremos este componente da banda. É sem dúvida a marca registrada, assim como o título dos CDs escrito em francês. Talvez seja mais do que uma marca e sim uma tradição ou um mito… Com OMS jamais cogitamos cantar em inglês para facilitar a aceitação e mantivemos a nossa língua mãe do primeiro ao último álbum, apesar das inúmeras dificuldades que isso acarreta para o reconhecimento dentro do cenário alternativo. Os poemas em Latim são algo que se identifica de tal maneira connosco, que sentimos como se aquilo tivesse realmente partido de nós.

Com o uso dos poemas, preces e temáticas religiosas; ouvir ou cantar os temas de O Quam Tristis…” pode ser considerado uma espécie de intercomunicação com Deus? Uma espécie de oração?
Deixamos aos nossos ouvintes a escolha da melhor maneira de abraçar a nossa música. Nós somos um pouco mais místicos do que religiosos e sabemos perfeitamente que a Religião foi criada para cativar pessoas e então se absolver dos tenebrosos acontecimentos que reconhecemos ao longo dos séculos. Nossa “oração” tem mais relação com aspectos estéticos do que como uma prece real a um suposto Deus, único ou múltiplo. Consideramos a música como forma de nos reunirmos para um objectivo comum, o que chamamos de criação e única maneira que encontramos para nos elevar. Se há alguém acima de nós lá nos céus, deveríamos estar felizes se ele pudesse ouvir aquilo que estamos a compor. De qualquer forma, nós ainda vivemos com muitas expectativas e dúvidas sobre alguma divindade superior. Com ou sem fé, você pode adorar ou odiar. Se nossa música ajuda as pessoas a orar, isto é fantástico… mas pode também ser ouvida de outras tantas diferentes formas…

Os raros concertos de “O Quam Tristis…” são belíssimos, como o do Wave Gotik Treffen 2006 que tive o prazer de assistir. Fale-nos um pouco sobre as apresentações?
Quando estamos em palco, tentamos recriar uma atmosfera religiosa ou pelo menos mística ao usar algumas projecções de vitrais do século XIX que coleccionei durante minhas viagens e visitas às igrejas francesas. A principal dificuldade quando nos apresentamos é atingir o perfeito equilíbrio entre os instrumentos acústicos e a base electrónica. Para a maioria dos técnicos de som é mais fácil tratar de sons sintéticos do que obter a bela sonoridade de mandolas, flautas, dulcimer e muitas vozes a cantar ao mesmo tempo. Todos estes arranjos necessitam tempo e quando tocamos num Festival, isso é o que menos temos. De qualquer forma tentamos dar o nosso melhor para satisfazer todos os ouvintes. Apesar de alguns problemas com a munição, mantemos na memória uma actuação muito boa em Leipzig. Schauspiellhaus é um teatro tão bonito e onde tantas bandas que adoramos já tocaram antes que foi uma experiência extraordinária para nós.
“O Quam Tristis…” band

Fala-nos sobre “Les Chants Funestes”, este 4º e belíssimo álbum e sobre a escolha da temática deste trabalho e das repercussões após a edição?
Não há uma temática central neste álbum. As faixas foram compostas calmamente durante os passados 4 anos. Há aqui uma boa proporção entre poemas seculares e religiosos e talvez exista uma presença maior das teclas e batidas electrónicas. Assim como o uso de alguns loops de guitarra para dar mais força em algumas faixas (“Sancta Nox” por exemplo). Foi algo deliberado, pois queríamos fazer um álbum mais nervoso que o antecessor. Desse modo temos uma menor utilização dos instrumentos acústicos e uma maior importância às intervenções polifónicas. As vozes femininas e masculinas aqui possuem importância primordial desde o começo.
Este é sem dúvida o álbum mais “vocal”, assim como pode ser considerado, apesar do título um pouco triste [“Les Chants Funestes”] , é o mais “feliz”; talvez pela mistura do “Dark”, “Heavenly” e Medieval com um toque apreciável de “Pop”. Esta pequena evolução tem sido destacado positivamente pela maioria dos críticos e ouvintes; mas para alguns isso soa demasiado. De qualquer forma nós não podemos compor o mesmo tipo de trabalho todas as vezes e a escolha dos ritmos e texturas tornam algumas faixas completamente dançáveis… Não há problemas, mas acaba por não soar como um puro “O Quam Tristis…”. Nós descobrimos a imagem da capa durante uma viagem a Rússia alguns anos atrás… Conhecíamos este famoso pintor francês, Horace Vernet; porém nunca tínhamos visto esta particular pintura antes. Tal beleza foi um choque! Tiramos uma fotografia e pensamos utilizá-la mais tarde em nosso quarto trabalho com OQT. A imagem mostra um anjo a conduzir uma jovem ao Paraíso enquanto seu marido ora e chora pela perda do seu amor, o que se encaixa perfeitamente nos poemas cantados em alguns dos temas.

Fale-nos sobre “O Caelo” e “Sancta Nox”, os meus temas preferidos deste CD? Quais são as vossos?
Cada membro tem as suas preferidas, mas posso dizer que a minha favorita é “O Caelo” também. Gosto da mistura entre a linha de baixo sombria, percussões electrónicas, teclados eclesiásticos, ritmos a “Synth Pop” e a voz mágica de Tomek (Patrick). A voz de Carine está igualmente encantadora… Aprecio a maneira que canta neste tema, como se fosse uma pequena criança. É um tipo de oração desesperada e vã.
Originalmente, “Sancta Nox” foi composta para uma compilação de Natal da editora americana Projekt. Apesar de cantarmos e compreendermos um pouco de Latim, não somos capazes de escrever naquele idioma; assim procuramos uma tradução em Latim de famosas canções de Natal e encontramos duas possíveis letras para usar: “Holly Night, Sweet Night” e “My beautiful Pine Tree”. Então compomos algumas músicas para encaixar nestas tradicionais letras. Algum tempo depois recebemos a informação da Projekt de que se abandonou a colectânea porque a maior parte das bandas conhecidas cancelaram a participação e sem elas a editora preferiu cancelar o CD. Em todo o caso, não houve muitos problemas para nós já que “O Abies” e “Sancta Nox” foram as raízes deste nosso novo álbum!

No Ano passado, os fãs de Opera Multi Steel foram presenteados com a esplendorosa caixa “K7 Tapes Archives” editada pela VOD-Records (Vinyl-on-Demand) e limitada a 600 cópias. Podes nos falar desta magnifica box? É sem dúvida um reconhecimento de todos os esforços, história e importância dos OMS? Sinto-me honrado por ter uma cópia deste material, Merci!
Frank Maier é quem está por trás desta editora chamada VOD e especializada em reeditar material raro de bandas dos anos 80 de fitas K7 para vinil. Ele soube que nós tínhamos feito uma quantidade bem limitada de fitas K7 na nossa primeira década como OMS e pergunto-nos se estávamos interessados em reeditar algum deste material. Certamente este 3 LP Box é um tipo de Antologia. A selecção foi feita por nós entre dezenas de demos e antigos temas que tínhamos arquivados em nossos armários. É um material dedicado aos fãs e coleccionadores da banda. Algumas das faixas jamais tinham sido editadas e outras mostram nossos temas clássicos gravados no seu estado embrionário. Em relação à caixa, Frank Maier deixou-nos livres para planear o que quiséssemos; assim escolhemos envolver todos aqueles arquivos numa grande caixa de chocolate impressa com letras douradas. O booklet mostra muitas fotos nossas nos primeiros anos de OMS e é realmente um artigo muito emotivo para nós! Concordo contigo quando dizes que é um reconhecimento, embora atrasado, do nosso trabalho pela Europa. Assim como sabe que a reedição do nosso primeiro álbum, “Cathedrale”, foi viável graças a uma editora francesa, o que seria impossível imaginar 10 anos antes!

Vocês também editaram recentemente, pela Wave Records, a 2ª Antologia dos Opera Multi Steel (“Parachevement de L’Esquisse”) no Brasil; a qual conta com edição limitada a conter material para fãs e álbum bónus com raridades tais como a antiga versão de “Eleanor Rigby” dos Beatles e algumas faixas gravadas ao vivo no concerto de São Paulo em 1997. Fale-nos sobre essa compilação de êxitos?
A primeira antologia do OMS (“Days of Creation”) foi editada em 1995 pela brasileira Museum Obscuro e esgotada há muito tempo. Três outros álbuns da banda foram lançados após esta compilação, assim fazia sentido realizar uma nova colectânea que englobasse as canções desde o início até o final do OMS. Na nossa mente, quando começamos a trabalhar nesse projecto, era mesmo o momento de se colocar um ponto final nas aventuras de OMS. Nos dois CDs pode se encontrar temas escolhidos por todos os membros após longos debates e votações, já que só poderíamos colocar 30 faixas. Somente as mais clássicas foram recolocadas nesta nova antologia, em detrimento de outras tantas menos conhecidas mas que gostamos muito. Em relação ao limitado CD bónus e a saca especial; Alex Twin é o responsável pela Wave Records e também esteve na origem daquela primeira compilação. Ele descobriu uma gravação de nossos concertos em São Paulo… e considerou uma boa ideia colocar alguns temas neste CD bónus. Era impossível escolher muitas músicas já que a qualidade da gravação é muito fraca, mas foi possível seleccionar três que servem como uma boa recordação daqueles incríveis dias que estivemos no Brasil. Desde então nós sempre temos tido um óptimo relacionamento com algumas pessoas que conhecemos naquela ocasião. Há ainda no CD um tema em colaboração com os brasileiros Individual Industry, uma versão especial de “Armide” cantada por Chloé St Liphard (Collection D’Arnell Andrea) e outros dois raros temas “Bella Donna Imperatrix Mundi” e Eleanor Rigby (Beatles é nitidamente uma de nossas importantes influências melódicas).
“O Quam Tristis…” band

Após a edição destas memoráveis compilações e alguns convites para concertos; há alguma possibilidade de m regreso de Opera Multi Steel?
Após a edição destas últimas compilações e trabalhos, surgiu um novo interesse pela banda através de editoras do Brasil, França e Itália para a produção de um álbum inédito de OMS… Temos pensado muito sobre isso e é claro que não conseguiríamos editar três novos CDs, porém ponderamos compor algumas novas músicas e até mesmo gravar mesmo um álbum completo e ainda temos algumas canções antigas que poderíamos melhorá-las. Nada é certo neste momento, mas estamos a trabalhar em todos os projectos. Quanto a concertos; para já, OMS é uma banda indisponível.

Algumas curiosidades: Vocês continuam a morar numa casa que antigamente fora uma estação de comboios em Bourges? Vocês continuam a morar na casa que já foi uma estação de comboios em Bourges?

Sim, é verdade que Catherine e eu vivemos numa antiga estação. Os comboios não param mais, mas continuam a passar bem próximo de nossas janelas. Esta estação é bastante simples e foi construída no século XIX. Tornou-se por anos a “Estação OMS” porque era aqui que criávamos, ensaiávamos e gravávamos. Muitas das canções de OMS, OQV, Thy Violent Vanities e 3 Cold Men foram produzidas lá. Aquele ambiente é uma fonte de inspiração!
Vocês continuam a ensaiar envoltos por estátuas de santos e anjos?
Sim, mas não somente na sala de ensaios. Nossa casa é chamada de “Museu” pelos nossos amigos e parentes porque colocamos todas as coisas que coleccionamos nela. Não só estatuas e pinturas de anjos e santos, mas também algumas recordações do passado e presente de OMS e OQT… Há ainda uma larga colecção de coelhos em miniatura e outras coisas mais contemporâneas.
Aquela fã de OMS que os acompanhava (inclusive viajou ao Brasil) e vestia aquela armadura, ainda continua a presenciar todos os vossos concertos como “OQT…”?
Infelizmente, nós fomos informados que ela faleceu há 2 anos. Ela nos seguiu como OMS desde o princípio e continuava com "O Quam Tristis…”… Descanse em paz.

Deixe algumas palavras sobre as actualidades dos múltiplos projectos ainda activos de que participam?

Opera Multi Steel: Já passei as novidades nas perguntas anteriores. Existe a possibilidade da produção dum álbum de inéditos e estamos em busca de instrumentos antigos para conseguir aquela sonoridade do início do projecto. “O Quam Tristis…”: Trabalhamos em alguns temas novos e já temos alguns outros prontos, inclusive estaremos numa compilação italiana em breve. Mas não é a nossa prioridade para 2009.
Thy Violent Vanities: Estamos a trabalhar lentamente. Já temos 8 temas, ainda baseados em Shakespeare.
Collection D’Arnell~Andrea: O novo álbum, com toques electro-acústicos, já está em gravação.
The 3 Cold Men: Espero o material vindo do Brasil para um novo CD. Celebraremos 10 anos em 2009!
Seven Sobs of a Sorrowful Soul: Tenho gravado um álbum com o americano de Bleeding Like Mine, mas ainda não sei ao certo quando será realmente editado…

Após tantos, excelentes e ecléticos projectos musicais; consideram-se pessoas realizadas?
Como você sabe, se a música não fosse a essência de nossa vida, acredito que já estávamos parados há muito tempo. Quando sentimos que o final está a se aproximar, alguns novos projectos aparecem e outros antigos são ressuscitados. Penso que somos pessoas realizadas porque ainda somos criativos e talvez muito afortunados por poder realizar quase tudo do que mais gostamos. Quando cada nota emitida por nós morrer, nós morreremos e retornaremos as cinzas das nossas origens.


http://site.voila.fr/o.quam.tristis/accueil.html
http://pagesperso-orange.fr/opera.multi.steel

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