terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

LA CHANSON NOIRE – Música para os mortos (cd+dvd - 2010 Ragingplanet)


A capa propositadamente garrida, de gosto duvidoso, que abraça esta ambiciosa edição de LA CHANSON NOIRE, pode dissuadir qualquer incauto à sua audição, o que se torna numa grande injustiça! Mas esta decisão deliberadamente kitsch, certamente ponderada, é só mais um dos inúmeros tiques de esquizofrenia criativa que brota facilmente do universo fértil de Charles Sangnoir - o feiticeiro, cartomante, charlatão, curandeiro e músico que dá corpo a este projecto ímpar do circuito nacional.

Neste disco de bizarrias várias (no dvd que acompanha a edição podemos encontrar vídeos para todos os temas do disco ainda que em regime semi-caseiro e de âmago maioritariamente amador) a maior que podemos encontrar são as canções em si, de arranjos cuidados e inventivos, e de refrões que se pegam à mente como caramelos nos dentes. O disco tem, manifestamente, uma propensão à paródia, mas Charles Sangnoir não consegue esconder sempre que também tem um lado sério que se deve levar (muito) a sério!

Em “Música para os mortos” há um pouco de tudo: o rock de reminiscência oriental de “Caixão à cova”; a pop em regime de pesadelo de “Uma canção decente”; a morna exótica casada com samba de “Carnaval no cadafalso”; a poprock de andamentos vários de “Esquizofrénico”; a música progressiva com nuance punk, adocicada por um portentoso refrão de “O meu amor tem a força de uma g3”; a desgarrada desenfreada, com arranjos à anos 80 de “The King Of Whores”; e até mesmo uma balada com solo de guitarra hardrock de “Loneliness is a common word”, onde pontifica uma figura lendária da cena nacional: Phil Mendrix... Mas este ecletismo não transforma a obra de La Chanson Noire num exercício de dispersão estética. Embora substancialmente diferentes entre si, quaisquer das suas músicas lhe são facilmente reconhecíveis. Os elos comuns são sempre, claro, a sua voz (reparamos, curiosamente, que quando canta em inglês se aproxima deliciosamente do timbre de Wayne Hussey) e o seu característico dedilhado de piano.

O disco é bastante equilibrado, mas as suas “pérolas” encontram-se na sua parte final: “Menage à trois” tem a participação de Pat Vanity e é um tema brilhante, repleto de riquíssimos arranjos, que poderia facilmente figurar num qualquer disco de Anita Lane... Arranjos aprumados que se voltam a repetir no empolgante “Oceano cor de rosa”, uma anti-ode que acaba por ser, ela mesmo, uma ode... ao vinho rosé! Igualmente luxuosa é a abordagem melodramática que Charles Sangnoir faz na interpretação de “Quand tous les putes son mortes”, fazendo desta, uma canção absolutamente genial. Em “Sedução contemporânea” voltam a destacar-se os pizzicatos da violinista Tânia Simões e a toada mid-tempo desta espécie de opus amoroso rural... Destaques ainda para “Raio de Aventura”, uma marcha com subtis arranjos e com “pá-pá-rá-pá-pás” que nos ficam a ecoar, e o epílogo “Azabel”, uma simples mas assombrosa canção que fecha com elegância este trabalho conceptual de LA CHANSON NOIRE.

Já conhecíamos o talento deste músico, tanto no split-cd com os Espelho Mau, como nas suas performances ao vivo, mas este disco, mais que um afirmar definitivo, é um passo em frente que o consolida como um enorme compositor português. Paradoxalmente, a sua linguagem vernácula, fortemente explícita, titubeante entre a verborreia de taberna e o prosaísmo de botequim é, simultaneamente, a sua maior característica e a sua maior inimiga. É que infelizmente, nem todos toleram ou conseguem decifrar a forma peremptoriamente irónica de como LA CHANSON NOIRE tem “tornado a canção negra cada vez mais rica”...


Carlos Matos

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